O Brasil lê inglês melhor do que fala: os 52 pontos que separam as duas coisas
Quase todo brasileiro que estudou inglês reconhece a sensação: você entende o e-mail, entende a série, entende a documentação técnica, e trava na hora de responder. Isso não é uma impressão pessoal. É a forma exata do dado nacional, e dá para medir em pontos.
Onde o Brasil está no mapa
No EF EPI 2025, o Brasil marca 482 pontos e ocupa a 75a posição entre 123 países, na faixa que o índice chama de proficiência baixa. A média mundial é 488, então o país está logo abaixo dela. Na América Latina, o Brasil aparece em 16o lugar entre os 20 países da tabela regional, logo abaixo do Panamá (491) e logo acima da Colômbia (480), e bem distante da Argentina, que lidera a região com 575.
Há uma boa notícia no meio disso: 482 representa uma alta de 16 pontos sobre a edição anterior, que foi de 466. O país está melhorando. O que não mudou é a forma dessa proficiência.
Pontuação de inglês, Brasil e vizinhos
A forma do problema: entender é fácil, produzir é que não
Quando a nota nacional é aberta por habilidade, o desenho fica claro. Leitura 516, escuta 468, fala 464 e escrita 442. A leitura é a única habilidade em que o Brasil fica acima da média mundial, e a distância entre ela e a fala é de 52 pontos.
Pontuação do Brasil por habilidade
O próprio EF publica esse recorte de um jeito ainda mais direto. Em uma tabela chamada "impacto de incluir as habilidades produtivas", o índice mostra quanto cada país valeria se fossem contadas apenas as habilidades receptivas, ou seja, leitura e escuta. O Brasil marca 492 nessa conta. Somando fala e escrita, cai para 482. Dez pontos de queda, que é exatamente o preço da produção.
Medido só pelo que consegue entender, o Brasil fica acima da média mundial. Medido também pelo que consegue produzir, fica abaixo. O país inteiro cabe nessa diferença de dez pontos.
Quantos brasileiros realmente sabem inglês
O levantamento de referência continua sendo o do British Council com o Instituto Data Popular, publicado em 2014 com campo em 2013. Ele encontrou que 5,1% da população de 16 anos ou mais afirma ter algum conhecimento de inglês, e 10,3% entre os jovens de 18 a 24 anos. Vale ler a formulação com cuidado: a pergunta é sobre algum conhecimento, não sobre falar bem.
É comum ver esse dado citado junto de um segundo número, o de que menos de 1% dos brasileiros seria fluente. Esse número não está no relatório do British Council. Ele aparece em reportagem de 2015 atribuída a uma diretora da instituição, mas não em documento publicado, e por isso não o tratamos aqui como estatística. A ausência de um dado oficial e recente sobre proficiência real da população é, em si, parte do problema.
O que a escola mede, e o que ela não mede
O inglês é a língua estrangeira obrigatória no ensino fundamental a partir do 6o ano e no ensino médio, por força da Lei 13.415 de 2017. E o exame que fecha essa etapa é o ENEM, que teve 5.055.818 inscrições confirmadas em 2026, segundo o INEP.
O peso da língua estrangeira nesse exame costuma surpreender. Segundo o edital, a prova de Linguagens tem 45 questões, das quais 5 são de língua estrangeira, e o candidato escolhe no ato da inscrição entre inglês e espanhol, respondendo apenas às da língua escolhida. Cinco questões, todas de leitura de texto. Não há nada no exame que meça se o candidato consegue dizer uma frase em inglês.
Aí está a explicação mais simples para o formato do dado nacional. Um sistema que avalia leitura produz leitores. A pontuação de 516 em leitura e 464 em fala não é uma anomalia: é o resultado esperado de estudar para o que é cobrado. E é também por isso que os erros mais persistentes do brasileiro em inglês aparecem justamente quando ele precisa produzir, como acontece com os falsos cognatos, que passam despercebidos na leitura e traem na hora de falar.
Quanto isso custa em salário
Não existe estatística oficial brasileira sobre o prêmio salarial do inglês: nem o IBGE nem a PNAD coletam proficiência em língua estrangeira, então qualquer número sobre o tema vem de pesquisa privada. A referência mais citada é a Pesquisa Salarial da Catho, feita com 13.161 profissionais em 2017, que associou o inglês fluente a uma remuneração até 61% maior em cargos de coordenação e 56% em cargos de direção.
Esse número deve ser lido como ordem de grandeza, não como medida exata: é levantamento de um site de vagas, com base autodeclarada, e a comparação de referência varia ao longo da própria publicação. Ainda assim, a direção é consistente com o que o mercado sinaliza, e o recorte por senioridade diz algo relevante: o prêmio cresce conforme o cargo sobe, ou seja, o inglês pesa mais exatamente onde se negocia, apresenta e conversa. Justamente a habilidade em que o país marca 464.